Aida dos Santos - Resistência e superação.
Niterói - Aida dos Santos, 81 anos, é professora aposentada de Educação Física da UFF, formada em Pedagogia também pela UFF, foi a primeira mulher a competir em jogos olímpicos representando o Brasil no ano de 1964, em Tóquio. Natural de Niterói, negra e de origem pobre, lutou contra todas as expectativas e represálias para realizar seu sonho e representar seu país.
Sua trajetória no esporte começou jogando vôlei na escola onde estudava. Porém, através do convite de uma amiga na época, teve seu primeiro contato com o atletismo. “Eu ia com minha amiga ao treino e, às vezes, quando não havia treino, ficava esperando ela. Sempre me convidavam e eu negava, mas um dia acabei cedendo e daí em diante comecei a praticar o salto em altura”, revela Aida.
Ainda não tinha apoio por parte da família. O pai cobrava que ela nada ganhava com a prática esportiva, e que era preciso trabalhar para ajudar a sustentar a casa. “A minha família nunca quis que eu praticasse esporte”, conta a ex-atleta. “Depois que eu ganhei o campeonato, onde me disseram que bati o recorde do estado, meu pai ainda assim não apoiava. Ele perguntou “ Você ganhou algo além da medalha? Não? Então esquece esse negócio de esporte, pobre tem que trabalhar pra ajudar em casa” e novamente fui proibida de praticar” conta a ex-atleta.
Mesmo sem apoio da família, Aida continuou praticando e treinando seus saltos e em 1964 alcançou o índice para participar das Olimpíadas de Tóquio, tornando-se assim, a primeira mulher brasileira a participar de jogos olímpicos. Mesmo assim, nenhuma estrutura esportiva lhe foi oferecida. Ela foi ao Japão sem técnico, material de competição, tradutor e, nem mesmo, a roupa para vestir na cerimônia de abertura. “Cheguei lá sozinha, treinava sozinha e dormia sozinha. Os dirigentes da delegação brasileira não me ajudaram em nada”, lamenta.
Aida também contou de como foi sua experiência durante os jogos e como sozinha conseguiu se inscrever e saltar. “Lembro que eu ficava de olho nas outras atletas, tudo que elas faziam eu fazia igual. Pra onde elas andavam eu ia atrás. Numa dessas seguindo as outras atletas para dentro de uma sala, uns homens estavam perguntando algo para as outras atletas e elas negavam. Quando chegou minha vez também neguei. Até hoje não sei o que me perguntaram” revela.
Depois de seu primeiro salto, Aida, por não estar acostumada com a estrutura dos jogo, acabou torcendo o pé ao passar sobre o colchão. Sozinha e sem saber a quem recorrer, recebeu ajuda de um médico cubano. “Eu estava lá, sentada no chão com muita dor e então o médico da delegação de Cuba fez uma proteção para que eu pudesse seguir na competição. Depois disso fiquei sabendo que no Brasil um jornal disse que eu voltaria dos jogos para Cuba. Que havia me tornado comunista”.
Mesmo lesionada, ela conseguiu saltar 1,74m, marca que garantiu o quarto lugar naquele ano. Esse desempenho, inclusive, foi o melhor de uma brasileira até as Olimpíadas de 1996. “Fiquei muito feliz. Depois de uns anos fiquei sabendo que a atleta russa tinha usado dopping antes da competição, mas na época não existia uma fiscalização sobre isso.” Eu comento com Aida: “Então o Comitê Olímpico está te devendo uma medalha”, e sorrindo ela responde com firmeza: “Estão sim”, finalizou. Em nenhum momento Aida transparece tristeza. Pelo contrário. Contou sua história com orgulho. Uma história que é, sem tirar nem pôr, de uma verdadeira vencedora.
Lucas Benício de Azevedo Cunha